É o chamado mais comum do verão: o aparelho liga, o ventilador da evaporadora sopra normalmente, o display responde — e o ar sai na temperatura ambiente. Para quem está começando, esse é o sintoma que dá vontade de já colocar o manifold. Para quem tem calo, ele é uma boa notícia: metade das causas possíveis já caiu antes de você abrir a maleta.
O ventilador interno girando prova que existe alimentação chegando à evaporadora, que a placa está viva e que ela obedece ao comando. Nada disso é pouco. O que sobra está do meio para o fundo do sistema: o circuito frigorífico ou a unidade condensadora. A ordem abaixo percorre esse caminho do mais provável e mais barato para o mais caro e mais invasivo.
1. Fluxo de ar antes de qualquer manômetro
Filtro saturado e serpentina encardida derrubam a troca térmica a ponto de o cliente sentir 'ar quase natural' saindo. Em casos mais avançados a evaporadora chega a congelar em bloco, e aí o ar praticamente para de passar — o técnico atende como 'não gela' o que era falta de limpeza.
Este passo vem primeiro porque é o mais barato de checar, o mais frequente e o único que às vezes se resolve na mesma visita sem peça nenhuma. Se houver gelo, é preciso degelar por completo antes de medir qualquer coisa: com a serpentina bloqueada, toda leitura de pressão que você tirar vai mentir.
2. A condensadora está ligando?
Vá até a unidade externa e confirme se ela parte. Ventilador externo e compressor parados, com a evaporadora funcionando, mudam completamente a direção do diagnóstico: o problema passa a ser comando, alimentação ou proteção da condensadora — e não carga de refrigerante.
Aqui entram cabo de interligação, borneira e aterramento. É também onde muitos aparelhos exibem código de erro de comunicação. Se o seu mostrar código, comece por ele em vez de adivinhar: a leitura do código encurta o caminho.
3. O compressor parte e sustenta?
Compressor que tenta partir e desarma, ou que roda alguns minutos e para, aponta para proteção acionada — térmica, corrente, tensão ou pressão. Nesse cenário a queixa do cliente costuma vir como 'gela um pouco e depois para'.
Repare que até aqui você não tocou no circuito frigorífico. Isso é intencional: todo acesso ao sistema selado é irreversível, e uma boa parte dos casos se resolve antes desse ponto.
4. Só então a carga — e medida, não estimada
Se a condensadora liga, o compressor sustenta e o fluxo de ar está livre, aí sim o circuito frigorífico é o suspeito. E é exatamente aqui que se comete o erro mais caro do atendimento: completar carga 'no olho', pela pressão, pela temperatura da tubulação ou pelo suor no passeio.
Pressão sozinha não diz se a carga está correta. O que responde isso é superaquecimento e subresfriamento — e os dois exigem medir temperatura e pressão no ponto certo, converter pela tabela do fluido e comparar com a faixa esperada. Sem esse par de números, completar gás é apostar: você pode estar mascarando uma restrição, um sensor errado ou um vazamento que vai voltar em duas semanas com o cliente achando que o serviço foi malfeito.
E se houver falta de carga confirmada, ela veio de algum lugar. Aparelho selado não consome refrigerante. Achar e corrigir o vazamento é o serviço; completar é adiar.
5. A instalação elétrica, quando o aparelho é inverter
Um caso que consome muita hora de diagnóstico e não está no aparelho: queda de tensão no circuito de alimentação. Em inverter, tensão abaixo do previsto derruba a unidade em proteção sem que exista defeito no equipamento — e o sintoma aparece de forma intermitente, ligado a outras cargas da casa.
A pista que o cliente costuma dar sem saber que é pista: 'só acontece quando ligo o chuveiro' ou 'de noite funciona melhor'. Quando ouvir isso, vale conferir o dimensionamento do cabo e a queda de tensão do circuito antes de condenar a placa.
O que registrar antes de sair
Aparelho que apresenta esse sintoma uma vez costuma apresentar de novo. O que separa um segundo atendimento rápido de um diagnóstico do zero é ter registrado o que você mediu: pressão, superaquecimento, subresfriamento, tensão, o que estava sujo, o que foi trocado.
Se o mesmo código ou o mesmo sintoma voltar no mesmo aparelho meses depois, essa informação muda o diagnóstico — e é justamente a que se perde no caderno e na conversa de WhatsApp.
